Há mais de 40 milhões de pessoas escravizadas no mundo, um quarto delas crianças

INTERNACIONAL

19.09.2017 às 9h50

UNICEF calcula que haja mais de 6,3 milhões de crianças com menos de 14 anos a fazer trabalho escravo em fábricas só no Bangladesh

MUNIR UZ ZAMAN

Cálculos da Organização Internacional do Trabalho e da Fundação Walk Free apontam para quase 25 milhões de pessoas encurraladas em trabalhos forçados e 15,4 milhões forçadas a casar contra vontade. Do total de escravos laborais e sexuais, dez milhões são menores. As duas organizações avisam que estas são “estimativas conservadoras” perante a ausência de dados disponíveis sobre a situação nos Estados árabes e nas Américas

Durante o ano de 2016, houve cerca de 40,3 milhões de pessoas vítimas de escravatura moderna em todo o mundo, um quarto delas crianças. Os números são da Organização Internacional do Trabalho (OIT), um organismo das Nações Unidas, e da Fundação Walk Free, que esta terça-feira publicaram um relatório conjunto onde apontam que existem 24,9 milhões de pessoas espalhadas pelo mundo que estão encurraladas em trabalhos forçados e 15,4 milhões que, no ano passado, estavam presas em casamentos forçados. Do total, dez milhões são crianças.

Com base nessas estimativas, as duas organizações calculam que, este ano, do total de vítimas de trabalhos forçados, haverá 16 milhões na economia privada, 4,8 milhões vítimas de exploração sexual forçada e 4,1 milhões que são alvo de trabalhos forçados patrocinados por Estados, como trabalho agrícola e serviço militar obrigatório. Esta é a primeira vez que os cálculos sobre escravatura moderna incluem o fenómeno dos casamentos forçados, mais prevalente em países de África.

“O que é alarmante nestas novas estimativas é a simples escala do trabalho escravo moderno, o facto de termos 40 milhões de pessoas espalhadas pelo mundo a viver sob algum tipo de escravatura moderna é simplesmente inaceitável”, refere Fiona David, diretora executiva de investigações globais da Fundação Walk Free, citada pelo “Guardian”. “Quando há 24,9 milhões de pessoas a trabalhar sob ameaça ou coerção em agricultura, pescas e construção civil ou na indústria sexual, e no entanto as Nações Unidas falam em apenas 63 mil vítimas de escravatura registadas pelas autoridades no ano passado, torna-se claro o abismo que separa o problema e as respostas globais insuficientes.”

Segundo a investigação daquela fundação e da OIT, apesar de muitos escravos terem denunciado que foram vítimas de violência e ameaças, a maioria deles são explorados através de dívidas e do não-pagamento de salários. “Apurámos que 50% das 24,9 milhões de pessoas em trabalhos forçados são servas de dívida, muitas vezes obrigadas a aceitar um trabalho para pagar dívidas, para além de 7% dizerem que os seus empregadores as obrigam a pagar multas enquanto trabalham”, denuncia Michaëlle de Cock, uma das investigadoras da OIT. “Também fica claro como é que o trabalho forçado atinge as famílias, com 18% dos homens questionados a dizerem que os seus empregadores ameaçam diretamente as suas famílias e os seus filhos.”

Sobre o casamento forçado, muitas vezes envolvendo menores, David refere: “Não se sabe porque é que o casamento forçado é tantas vezes ignorado como uma forma de escravatura na recolha de dados. Se temos uma situação em que alguém é vendido para casar e assim cumprir trabalhos domésticos forçados, ficando sem autonomia sexual, então se tirarmos a etiqueta de casamento dessa situação muitas vezes lidamos com nada mais que escravatura. Temos de debruçar-nos sobre isto para que as pessoas possam olhar para o fenómeno como aquilo que ele é.”

INTERPRETAÇÃO “CAUTELOSA”

O estudo hoje divulgado aponta que a escravatura moderna é mais prevalente no continente africano, seguido da Ásia e do Pacífico, embora tanto a OIT como a Walk Free sublinhem que estes números devem ser intepretados “com cautela”, dada a ausência de dados disponíveis sobre a situação nos Estados árabes e nas Américas.

“Acreditamos que o cálculo de 40,3 milhões de pessoas escravizadas é o mais fiável à data, mas que é uma estimativa conservadora porque existem milhões de pessoas às quais não conseguimos aceder que vivem em zonas de conflito, em rotas de refugiados e em zonas onde não é possível fazer uma recolha de dados tão robusta, como é o caso dos Estados do Golfo, onde as barreiras de acesso e de linguagem nos impedem de chegar às comunidades de trabalhadores migrantes”, refere De Cock.

Neste ponto, vale a pena sublinhar a situação dos imigrantes clandestinos que estão a construir os estádios para o Mundial de Futebol de 2022, que vai decorrer no Qatar. Em março do ano passado, a Amnistia Internacional acusou a FIFA de estar a ignorar “o lado obscuro do desporto rei” naquele país, onde até ao próximo ano o número de migrantes explorados e a sofrer abusos deverá ascender aos 36 mil.

As investigações que resultaram no relatório hoje divulgado demonstram que mais de 70% das 4,8 milhões de vítimas de tráfico sexual estão escravizadas na região da Ásia Pacífico e que o fenómeno de casamentos forçados é mais prevalente em países africanos. Os números resultam de contas feitas com base em dados recolhidos nos últimos cinco anos, incluindo entrevistas com mais de 71 mil pessoas em 48 países e cálculos de várias agências das Nações Unidas, entre elas a Organização Internacional para as Migrações (OIM).

Fonte: http://expresso.sapo.pt/internacional/2017-09-19-Ha-mais-de-40-milhoes-de-pessoas-escravizadas-no-mundo-um-quarto-delas-criancas

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